Aprendendo muito com a classificação brasileira de ocupações

Mês passado recebi um convite para participar no dia primeiro de dezembro como analista de negócios de um trabalho realizado pela FIPE para o Ministério do Trabalho referente à CBO, a Classificação Brasileira de Ocupações. O trabalho tomou um sábado inteiro e, apesar de estar com muita vontade de usar meu tempo com outra coisa algo me dizia que valeria a pena e valeu.

O objetivo do trabalho era em uma sessão que levaria o dia todo com alguns intervalos definir quais eram os deveres e as tarefas que definiam quatro ocupações representadas por profissionais presentes.

A Classificação serve para o reconhecimento pelo Ministério do Trabalho da existência das ocupações. Esse reconhecimento é usado para guiar programas de governo, sensos, pesquisas e outras ações. A Organização Internacional do Trabalho mantém uma classificação, mas é claro que ela não abrange todas as ocupações de todos os países.

Quando falamos em abrangência estamos falando de todas mesmo. O trabalho de classificação atual envolve aproximadamente duas mil sessões com sete mil profissionais. Eu confesso que fiquei muito interessado por esse trabalho. Imagine um analista de negócios poder conhecer profissionais de todas as ocupações existentes, entender seus objetivos e o que fazem para atingi-los? É um conhecimento muito rico.

Você deve estar se perguntando se profissionais do sexo estão nessa lista e a resposta é sim. Outra ocupação interessante é a de catador de papel. Segundo a facilitadora, metade dos participantes da sessão naquele dia eram analfabetos e mesmo assim ela foi muita produtiva, trazendo ao conhecimento da classificação tarefas as quais elas nem faziam ideia.

Na última classificação a Análise de Negócios estava agrupada junto com ocupações voltadas para a publicidade, o que era muito estranho, uma vez que os objetivos são muito distintos, então, dessa vez ela foi mudada de agrupamento.

A priori o novo agrupamento me pareceu apenas “menos pior” do que o anterior, pois envolvia na primeira metade ocupações prioritariamente voltadas para vendas. O primeiro pensamento que me veio à mente foi “nossa, como é que essas pessoas sabem onde enquadrar cada ocupação?” e o segundo foi “nossa, estamos ferrados, pois não vamos poder mudar isso”.

Acontece que as pessoas responsáveis sabem como agrupar. Ocorre que no mesmo grupo estavam ocupações que, como viemos a descobrir ao longo do dia, tem muito a ver com análise de negócios: Relações Públicas, Ouvidor e Analista de Mercado.

Apesar dos agrupamentos, cada ocupação tem a sua definição própria. É comum as ocupações compartilharem tarefas entre si, contudo, há tarefas exclusivas e a combinação das tarefas e os diferentes objetivos que elas atendem é que definem uma ocupação.

 

 

O método utilizado para o trabalho se chama DACUM, um acrônimo para “Developing a Curriculum”, ou “Desenvolvendo um Currículo”. O método consiste em um processo de storyboarding que fornece uma representação visual do que o trabalhador faz em termos de deveres, tarefas, conhecimentos, habilidades, tratos e em alguns casos ferramentas.

Hum… peraí… “story”… “tarefas”… “representação visual”…

Não foi à toa eu me sentir confortável com o que eu vi na parede. Esse método é a cara do story mapping.

Na primeira coluna são colocados objetivos principais. No caso de um professor, o grande objetivo principal seria “ensinar”. Nas colunas seguintes são colocados papéis representando as tarefas que o profissional executa para atingir esse objetivo.

A forma com a qual as facilitadoras trabalhavam o vocabulário para que conseguíssemos pensar no que deveria ir parar na parede também era muito similar à facilitação de uma story mapping.

Lembro da facilitadora separando claramente o que era um objetivo do que era uma tarefa perguntando “ok, você quer isso, mas o que, objetivamente, você faz para chegar a esse resultado?”. Muito bom. Nada melhor do que fazer muito alguma coisa para ficar muito bom nisso.

Bem, eu já falei que gostaria de ter a oportunidade de conhecer melhor o máximo de ocupações, claro que isso não é possível, a não ser que eu me prepare e consiga trabalho na FIPE, contudo, esse sábado permitiu que eu conhecesse um pouco mais das ocupações que ocupavam a mesa conosco.

Notei que quase todas compartilham de preocupações similares às preocupações que temos na análise de negócios. Por exemplo: como analistas de negócios defendemos que o valor do nosso trabalho está na compreensão das reais necessidades das partes interessadas e não no simples ato de “tirar pedidos” registrando o que as pessoas pedem.

No caso do relações públicas, existe uma preocupação em ir além da melhoria da imagem de uma organização, o intuito é melhorar as ações da organização.

No caso da ouvidoria, o objetivo é garantir voz para quem não tem, buscar soluções, ou, pelo menos respostas para os demandantes e não se limitar ao que chamaram de “encaminhadoria”, ou seja, o simples ato de encaminhar problemas para outras áreas da organização.

Sério, eu nem pensava nisso antes desse sábado. No caso da análise de mercado, soube que o gerente de projetos está absorvendo todas as atividades do analista de mercado. Bem, a minha teoria é a de que se o gerente de projetos não absorver atividades dos demais não sobra muito para fazer (pausa para uma boa risada), então na prática o gerente de projetos é um analista de mercado que reporta para o negócio e para os clientes.

Outro aspecto que me deixou bem satisfeito no sábado foi que fazia tempo que eu não era uma parte interessada tendo meu trabalho facilitado por alguém. Sou sempre eu quem facilita (ou co-facilita) e quase nunca sou parte interessada, só me interesso mesmo pelo bem geral da nação.

No sábado eu estava realmente preocupado com como a análise de negócios seria representada, como fazer com que meus interlocutores compreendessem o que fazemos e o que é importante para a nossa ocupação. É uma posição bem diferente e me ajudou a buscar ainda mais empatia com as pessoas que participam das minhas facilitações.

E então, como ficou a análise de negócios na nova CBO??? Não posso dizer, é segredo até o começo do ano que vem quando será publicada. Só posso dizer que acho que o Fabrício Laguna (o relato dele está aqui), presidente do IIBA São Paulo e eu fizemos um bom trabalho.

Anúncios