Até onde vamos para não alterar o escopo

Essa semana um prédio público construído em Ponta Grossa no Paraná chamou a atenção da mídia por possuir algumas features digamos, peculiares.

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O edifício possui quase todas as paredes de vidro, o que, aliás, ficou muito bonito, contudo, essas paredes também foram usadas nos sanitários. No piso térreo é possível observar nitidamente o uso do banheiro que possui, inclusive, um chuveiro.

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José Aldinan/Gazeta do Povo

Outra peculiaridade foram as saídas de emergência que constituem em portas que dão para o vazio, ou seja, a opção é pular para fora do prédio do segundo e terceiro pavimentos e torcer que o chão seja mais agradável do que o fogo.

O projeto do prédio contava com banheiros transparentes e é claro que os responsáveis pela construção questionaram a prefeitura a respeito. A resposta foi que o projeto não poderia ser alterado e que tudo deveria ser feito à risca.

Em entrevista por telefone à Gazeta do Povo, o proprietário da empresa, engenheiro Carlos Nakazima, afirmou que a construtora seguiu o projeto à risca e que não constavam do memorial descritivo sugestões para impedir a transparência dos banheiros e nem o projeto da escada. “Não posso alterar um projeto arquitetônico sem a autorização de quem o criou. Nós identificamos o problema, estávamos cientes e avisamos a Prefeitura antes da inauguração. A empresa está aberta a questionamentos”, salienta.http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1333844&tit=Banheiros-transparentes-causam-estranheza-em-obra-publica-de-Ponta-Grossa

Uma resposta tradicional para esse problema seria dizer que é necessário investir no gerenciamento de projetos, que alguém deveria ser responsabilizado por isso (centralizar tudo) e que a passagem de bastão entre as fases deveria ser melhor observada.

Aí está o perigo, pois investir mais nisso estressaria o vetor errado e não trataria as causas dos problemas que envolvem a distância entre: quem vai usar de fato, quem vai pagar, quem vai desenhar e quem vai desenvolver; a falta de ciclos de feedback e a ideia de que um projeto só anda em uma direção: para frente.

Como um projeto faseado só anda para a frente, não havia um ambiente que amparasse esse tipo de questionamento, afinal, as fases anteriores estavam marcadas como “completas”.

A resposta dada pela prefeitura aos questionamentos do engenheiro são uma boa evidência disso.

Nesse contexto, mesmo que você descubra algo absurdo sendo feito será visto não como alguém que está auxiliando, mas como alguém que está atrapalhando, possivelmente atrasando o trabalho do vai vai cavalinho.

Nos sentimos compelidos a nos agarrar ao desenho inicial. Nesse caso chegou ao ponto de virarem motivo de piada.

As pessoas dizem que todos os projetos são, em algum momento ágeis. Os que não começam ágeis terminam ágeis, pois depois que o problema gigante aparece há duas saídas: cancelar ou aumentar a colaboração entre as partes e focar no que traz valor.

Agora que caiu na boca do povo eles vão correr para a segunda opção, já que não dá para deletar o prédio.

Quem pagou o pato foi o diretor do conservatório de música que utilizará o prédio, que aparentemente, nunca foi consultado a respeito do projeto, apesar de ser o principal interessado. Espero que esse vidro tenha boas propriedades acústicas.

Uma obra civil feita para o governo possui uma série de restrições que nos incentivam a correr para o escopo fechado, para o faseamento e a falta de ciclos de feedback. Não acho que sirva de desculpa, mas tudo bem, larguei a engenharia civil no quarto semestre e não é nem de longe o meu campo de atuação, contudo, com que cara ficamos quando o produto é software desenvolvido para a iniciativa privada? O que justifica que tenhamos os mesmos problemas que ocorreram nessa obra?

As restrições estão mais nas nossas mentes do que no mundo real.

Diz aí, você já entregou algum banheiro transparente por não poder alterar o escopo?

A piadinha infame é que, pelo menos nesse projeto, não dá para dizer que faltou transparência.

Veja a matéria aqui e tire as suas conclusões: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/predio-publico-no-parana-tem-todas-as-paredes-de-vidro-ate-as-do-banheiro/2333126/

 

Curiosidade sobre edifícios de vidro

 

<img class="size-medium wp-image-3562" src="http://blog.lambda3.com.br/wp-content/uploads//2013/01/heinkel-300×240.jpg&quot; height="240" alt="Foto: http://www.historytoday.com/rowena-hammal/never-surrender-british-civilian-mo…” width=”300″ style=”height: auto; display: block; margin: 0px auto; border: 1px solid #eeeeee; padding: 6px;” />

Foto: http://www.historytoday.com/rowena-hammal/never-surrender-british-civilian-mo…

Ao longo da segunda guerra mundial Londres sofreu muitos bombardeios, o que acabava com as janelas e portas de vidro de casas e edifícios.

Ao longo da guerra os Londrinos se especializaram em produzir vidro bom, mais barato e em maior quantidade que era imediatamente utilizado.

Com o fim da guerra e dos bombardeios começou a sobrar muito vidro. Os construtores aproveitaram aquele vidro todo e passaram a fazer belíssimos edifícios com paredes inteiras de vidro que, por deixar a luz e o escasso sol de Londres entrar, eram excelentes para aquela cidade.

Como nós focamos na estética, passamos a construir edifícios de vidro, inclusive em cidades como o Rio de Janeiro e cidades da região nordeste.

Acontece que o Brasil tem a maior incidência de sol do mundo, temperaturas médias altas, então colocaram cortinas e, consequentemente, refrigeração, mas muita refrigeração.

O cúmulo da ineficiência.

Isso lembra o hábito de usar terno preto e gravata em um país tropical, também copiado da Inglaterra/França.

 

 

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