Minha história em São Paulo contada na Revista Bicicleta (na íntegra aqui)

No final do ano passado a Revista Bicicleta me convidou a contar a minha história com as magrelas em São Paulo para uma seção da publicação. Eu fiquei muito feliz com a oportunidade de deixar um registro do que aconteceu nesses últimos três anos muito especiais. 

Segue abaixo a transcrição da matéria e no final, as fotos das páginas da revista. Aliás, a revista é muito bem feita e traz muitas informações para quem ama as bicis.

 

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Passar um mês inteiro trabalhando em São Paulo? Bem, isso pareceu meio estranho quando propuseram, principalmente porque São Paulo para mim lembrava “dinheiro”, “violência”, “trânsito”, “alagamentos” e “caos social” (os quatro últimos graças ao Datena). A essência do preconceito.

Durante 10 anos São Paulo se limitava a viagens a trabalho inevitáveis o mais curtas possível, muitas delas de bate-volta, contudo, após quatorze anos em Florianópolis eu havia passado por algumas mudanças radicais como o fim do casamento e ter largado um bom emprego para abrir a minha empresa, então, por que não? Aceitei.

Desci no aeroporto de Congonhas, porta de entrada das minhas visitas anteriores e segui a tradição: depois de uma bela fila embarquei em um táxi e fui para a empresa que fica na Faria Lima com a Rebouças. Eu só conhecia essas ruas por causa do Banco Imobiliário jogado na infância. Trabalhei o dia todo e precisava ir para o hotel onde passaria o próximo mês. Estava com a mala. Bora pegar um táxi.

Ao sair o mundo havia se transformado ao redor da empresa. Cheguei no meio da manhã, agora era horário de pico e estava tudo parado ou se arrastando. Achei um taxi e embarquei. O hotel também ficava em uma rua do Banco Imobiliário, a Nove de Julho e a apenas quatro quilômetros do trabalho. Bem, contei no relógio: de porta a porta foram 44 minutos e 40 reais. quase um real por minuto de desfrute.

Assim seria difícil. Eu não tinha fundos para gastar 40 reais/minutos para ir e 40 reais/minutos para voltar. Belo empresário! Os ônibus, minha feliz opção em Florianópolis desde 2003, pouco ajudavam. Eu precisava de uma alternativa, então, na manhã do segundo dia em São Paulo eu saí cedinho e resolvi caminhar. 

Uau. Cheguei em 40 minutos! Sem pressa, sem gastar e passeando por belas ruas daquela região. Parece que os 6 Km/h do ser humano médio eram equivalentes à velocidade do carro médio naquela região, mas eu não fiquei satisfeito. Faltava alguma coisa. Foi quando me veio à cabeça algo surpreendente que havia visto na última viagem para São Paulo: uma bicicleta dobrável. Estava em um carro na Faria Lima (agora eu sei que era lá) quando fomos ultrapassados por um sujeito em uma daquelas bicicletas excêntricas de aro 20’’.

Procurei na Internet, encontrei uma autorizada e o modelo de entrada, a ECO 1: branquinha, sem marchas. R$ 750,00. Liguei, imprimi a rota de volta e na hora do almoço me fui de táxi para a Av. Sumaré. A Corrida, minha última foi de 7 Km e custou R$ 26,00. Fechei a porta pensando: “todo dia não táxi! Te vejo uma hora dessas”.

O teste seria: se eu fizer os 7 Km de subida entre a loja e o trabalho eu faria os quatro de ia mais os quatro de volta brincando. Entrei na loja onde entraria muitas vezes no futuro (dei uma dobrável para cada pessoa de casa em Florianópolis), fui super bem atendido e saí de lá com a bicicleta, rapidamente apelidada de “Tetéia”, capacete e luzes.

E agora? Tinha que voltar. Eu tinha 32 anos, estava bem sedentário, mas não estava morto! Cheguei numa boa no trabalho e rapidinho. Naquele dia eu não tinha os conhecimentos de comportamento no trânsito que tenho hoje, mas saber dirigir carros me ajudou no mais importante na segurança do ciclista nas ruas: ser previsível.

Duas da tarde eu estava entrando triunfante no escritório com a Tetéia dobradinha que ficou ali, dia após dia, esperando ao lado da minha mesa a hora de ir para casa.

A Tetéia teve um efeito enorme na minha rotina e no meu jeito de perceber São Paulo. Eu ansiava por acordar e fazer meu trajeto até o trabalho.  Ao chegar, lamentava ele ser tão rápido e trabalhava esperando a hora de fazer o rolê de volta.

Já conhecia um monte de gente que havia perguntado sobre a bicicleta estranha e era conhecido como o cara da bicicleta estranha. No dialeto local a expressão era “da hora essa bike mano!”.

Meu hotel era daqueles de baixo custo, tudo certinho, limpinho, eficiente e… estéril. Foi o mais perto que cheguei de viver em uma estação espacial, então dá para imaginar a depressão que seria passar os finais de semana ali sozinho, sem conhecer ninguém, então eu saía cedinho com a Tetéia e só voltava à noite. 

Eu explorava a zona sul de São Paulo sem GPS e sem conhecimento prévio, só parando para perguntar para que lado era o quê: Avenita Paulista, parque do Ibirapuera e arredores, ciclovia da Marginal Pinheiros e por aí vai. 

“Me apropriei de São Paulo” como alguns amigos paulistanos dizem e aquela cidade “horrível” não era tão horrível assim, ela apenas ficava feia quando olhávamos por trás dos vidros de uma cápsula de lata cercada de cápsulas de lata emitindo fumaça. 

No primeiro momento  eu pensava que eu via São Paulo assim porque estava em uma área nobre da cidade, contudo, conforme fui conhecendo (sempre pedalando) outras regiões notei a verdade universal de que todos os lugares ficam mais bonitos quando você tem acesso direto a eles, quando passa devagar e se permite se misturar.

Notei que você não precisa ser um catarinense distante impressionado com o que a TV no fim de tarde fala sobre São Paulo para desenvolver preconceito com a cidade, você pode ser simplesmente um paulistano, nascido aqui mesmo, que só usa carro para se locomover. No carro não se vê pessoas, ruas, árvores, casas. Você vê pistas, outros carros e obstáculos.

Amei aquilo tudo e, juro, por acaso, encontrei uma vaga de trabalho muito legal em São Paulo ainda na terceira semana na cidade. Qual era a pergunta mesmo? Ahh, por que não? Terminei o trabalho daquele mês, dei dez dias em Florianópolis me preparando, procurando onde ficar perto do novo trabalho, lá no sul da cidade, próximo a Santo Amaro (é, claro que não ia morar em bairro de Banco Imobiliário!).

Cheguei para trabalhar sem ter certo onde ficar. Fui para um hotel “estação espacial” por cinco dias, mas na Internet encontrei um cara sensacional, baixista acústico vindo do interior de São Paulo morando a 6 Km do meu trabalho. Era uma casa, não um apartamento e esse cara gostava de viver uma vida simples. Aprendi muito com ele e ele comigo durante dois ótimos anos.

Desde os primeiros passeios pela cidade fui conhecendo pessoas ligadas a bicicletas, conheci a bicicletada nacional (passeio enorme realizado todas as últimas sextas-feiras do mês) e vários grupos. Rapidinho conhecia mais gente legal em São Paulo do que na minha terra natal.

Ao longo do tempo mudei de emprego, de trajeto e de bicicletas. Conforme trocava de bicicleta ia levando a anterior para Florianópolis para incentivar meus pais a voltar a pedalar. Eles voltaram e hoje pedalam muito. 

Foram-se a Tetéia, a Tetéia II (com sete marchas) e depois a Aretha (com seis marchas) chegando por fim ao Jipinho, uma dobrável com oito marchas e suspensão nas duas rodas, uma máquina com a qual eu rodei nada menos que seis mil quilômetros em um ano entre os 30 Km de ida e volta para o trabalho na Av. Paulista e as descidas para Santos (fantástica viagem que não canso de fazer). Isso tudo sem acidentes e sem assaltos. Não pode ser simplesmente sorte.

Quando tenho algum trabalho em outra cidade costumo levar uma dobrável comigo, seja no ônibus, seja no avião, assim, além de manter o hábito acabo conhecendo melhor cada cidade, seja o Rio de Janeiro, seja Bauru. Desembarcar em outra cidade, desdobrar a bicicleta e sair dali mesmo pedalando rumo ao hotel ou ao evento traz uma sensação de autonomia sensacional. Desdobrar a bicicleta após retirar da esteira de bagagens de Congonhas e sair pedalando enquanto todos aguardam naquela fila enorme para os taxis também. Em dia de chuva então, nem se fala.

Ano passado eu comecei a sentir uma dor insistente no quadril que logo notei estar vinculada às pedaladas. Eu levei um tempo para descobrir o que era e qual a gravidade, o que me deixou bastante preocupado. Foi nesse período de dois meses que arranjei uma bicicleta com motor elétrico (também dobrável) e passei a usá-la para ir e voltar do trabalho. 

Esse período serviu para eu separar bem os componentes da bicicleta na minha cabeça. A bicicleta com motor resolvia o meu problema logístico, contudo, todos os demais benefícios da bicicleta, aqueles vindos do vínculo entre o esforço físico e o movimento, a autonomia, a construção das pernas (perna se constrói, não se compra), as recompensas químicas no cérebro estavam fora do meu alcance.

Por um bom tempo eu sentia uma espécie de vergonha por não estar pedalando, fiquei retraído e não cumprimentava os ciclistas por quem passava. Isso foi um exagero, claro, eu estava usando um meio, apesar de haver problemas com a regulamentação em São Paulo, legítimo para resolver meu problema. Mesmo assim, recomendo o uso de bicicletas com motor somente quando não há alternativa uma vez que o que se perde quando se apela para um motor é justamente o vínculo com o mundo real. 

Com motor nosso estado de espírito rapidamente se volta para a pressa de quem não sente a relação entre o seu esforço e o movimento. Do nada me vi apressado e irritado. Abandonei a bicicleta com motor de vez no exato dia em que me recuperei como se elas fossem as muletas usadas enquanto a perna quebrada sarava.

Engraçado como a cidade grande e a “vida adulta” levam você a esquecer as coisas óbvias que amava. Meu amigo músico chegou a competir com patrocínio em provas de downhill, mas a sua bicicleta estava parada havia oito anos. Ele se empolgou tanto que adotou novamente a magrela esquecida, comprou uma speed e logo estava fazendo trajetos maiores que o meu para dar aula nas casas dos seus alunos.

Trabalhei muito desde que cheguei em São Paulo, muitos projetos para grandes empresas daquelas que anunciam na TV, contudo, o que aquece meu coração mesmo é pensar nas dez, doze pessoas que influenciei diretamente com o exemplo (e um pouco de militância ciloativista) e que hoje fazem da bicicleta o seu meio de transporte principal. 

Uma dessas pessoas acabou virando meu amor, minha companheira e nossa história foi se desenrolando ao redor das bicicletas. Ela, paulistana que conheci em um dos clientes que atendi como consultor, gostou da ideia, comprou a Tetéia III de mim (hoje se chama Alcides).

Foi ela quem encontrou nossas bicicletas “grandes” maravilhosas: o Guacamole e a Laurinda em uma loja de Criciúma por um preço ótimo e que volta e meia viaja de carona sentadinha sobre o quadro com as pernas cruzadas, como ontem quando fomos ao cinema.

Moramos no centro da cidade onde fazemos tudo a pé ou de bicicleta e ela me ensina sobre a história da cidade, rua por rua, prédio por prédio. Hoje, domingo, fomos pedalando coletar mudas de plantas frutíferas nos canteiros das ruas da Vila Mariana para plantar na hortinha de casa. 

Eu amo São Paulo. Eu amo você…

 

 

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2 comentários sobre “Minha história em São Paulo contada na Revista Bicicleta (na íntegra aqui)

  1. Sou um dos influenciados por você. E não volto mais para o jeito antigo. Valeu!

  2. Cara, Muito massa! Parabéns pelo o que alcançou e pelas boas influencias que causou!! Excelente post, muito encorajador!! continue assim!! Saude, paz e muitos roles de bike!

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